O avanço dos medicamentos para tratamento da obesidade, popularmente conhecidos como “canetas emagrecedoras”, trouxe novas possibilidades para pacientes que enfrentam dificuldades para perder peso e controlar doenças associadas. Mas, afinal, quando esses medicamentos podem ser utilizados? Eles podem substituir a cirurgia bariátrica? E quais cuidados são necessários antes e depois do procedimento?
Para esclarecer essas e outras dúvidas, conversamos com o médico cirurgião do aparelho digestivo e especialista em cirurgia bariátrica Rogério Rodrigues. Na entrevista, o especialista explica como os medicamentos podem ser utilizados no tratamento da obesidade, os cuidados necessários no período que antecede uma cirurgia e o papel das canetas em pacientes que já passaram pelo procedimento.
Rogério também alerta para os riscos da automedicação e reforça que o tratamento da obesidade deve ser individualizado, considerando não apenas o peso, mas também as condições de saúde, o histórico clínico e as necessidades de cada paciente.

Canal Viva Bem – As canetas emagrecedoras podem ser indicadas antes da cirurgia bariátrica? Se sim, em quais situações?
Rogério Rodrigues – Sim. As chamadas canetas emagrecedoras, como os medicamentos à base de agonistas do GLP-1 ou agonistas duplos GLP-1/GIP, podem fazer parte do tratamento da obesidade antes da cirurgia. Elas podem ser utilizadas para pacientes que ainda não atingiram os critérios para cirurgia, para aqueles que precisam perder peso antes do procedimento ou quando precisamos melhorar condições associadas à obesidade, como diabetes, hipertensão e apneia do sono. Em alguns pacientes, essa perda de peso pré-operatória também pode contribuir para tornar o procedimento mais seguro. Mas é importante deixar claro: o medicamento não deve ser usado simplesmente para “adiar” uma cirurgia que já está bem indicada. A decisão precisa considerar o quadro clínico completo e os objetivos do tratamento.
CVB – Para quem já tem indicação de bariátrica e está usando as canetas emagrecedoras, é melhor continuar o tratamento até a cirurgia ou é necessário interromper?
RR – Não existe uma regra única para todos os pacientes. A decisão deve ser individualizada. Precisamos avaliar o tipo de medicamento, a dose utilizada, se o paciente está aumentando a dose, a presença de náuseas, vômitos, refluxo, distensão ou outros sintomas gastrointestinais, além das condições clínicas e do planejamento anestésico. Hoje, sabemos que a suspensão automática para todos os pacientes não é necessariamente a melhor conduta. Hoje já existe um consenso de suspender 2 a 3 semanas antes do procedimento cirúrgico. Em alguns casos, pode ser possível manter o medicamento; em outros, pode ser necessário ajustar ou suspender temporariamente. O mais importante é que o paciente não tome essa decisão sozinho. O cirurgião e o anestesista devem participar dessa avaliação.
CVB – Existe algum risco relacionado ao uso das canetas próximo da cirurgia?
RR – Existe uma preocupação principalmente porque esses medicamentos podem retardar o esvaziamento do estômago. Em determinados pacientes, isso pode aumentar a quantidade de conteúdo gástrico no momento da anestesia e, consequentemente, o risco de regurgitação e aspiração. Esse cuidado é ainda maior em pacientes que estão iniciando o tratamento, aumentando a dose ou apresentam sintomas gastrointestinais importantes. Por isso, antes da cirurgia, o paciente deve informar exatamente qual medicamento utiliza, qual dose está tomando e quando foi realizada a última aplicação, mas o consenso é suspender 2 a 3 semanas antes do procedimento. A equipe cirúrgica e anestésica vai definir a melhor estratégia de segurança.
CVB – E para quem já fez bariátrica: as canetas podem ser utilizadas com segurança?
RR – Sim. Sou entusiasta das canetas emagrecedoras como ferramenta de apoio no tratamento da obesidade. Elas podem ser utilizadas em pacientes que já fizeram cirurgia bariátrica, desde que exista indicação e acompanhamento médico. Podem ser muito úteis principalmente nos casos de reganho de peso, perda de peso insuficiente ou dificuldade de manter o resultado obtido com a cirurgia. Mas é fundamental investigar por que esse paciente está ganhando peso. Precisamos avaliar alimentação, comportamento, atividade física, fatores metabólicos, medicamentos, aspectos psicológicos e, quando indicado, investigar se existe alguma alteração anatômica relacionada à cirurgia. A caneta pode ser uma excelente ferramenta, mas não deve ser usada simplesmente para “corrigir” o peso sem investigar a causa.
CVB – As canetas podem substituir a cirurgia bariátrica?
RR – Podem fazer parte do mesmo plano de tratamento, sim. Existem pacientes que respondem muito bem aos medicamentos e conseguem atingir seus objetivos sem cirurgia. Mas também existem pacientes nos quais a cirurgia apresenta uma indicação mais adequada, especialmente diante de obesidade mais grave ou de doenças associadas. E existe ainda um terceiro cenário: medicamento e cirurgia podem ser complementares. Podemos utilizar o medicamento antes da cirurgia, em determinadas situações, e também depois da cirurgia, quando houver indicação. A escolha não deve ser baseada em uma disputa entre “caneta versus cirurgia”, mas naquilo que proporciona o melhor controle da doença para aquele paciente.
CVB – Diante de tantas opções, qual é o melhor caminho: medicamento, cirurgia ou combinação de estratégias?
RR – O melhor tratamento é aquele que é individualizado. Obesidade é uma doença crônica e complexa. Não podemos olhar apenas para o número da balança. Precisamos avaliar o grau da obesidade, diabetes, hipertensão, apneia, doenças cardiovasculares, histórico de tratamentos, comportamento alimentar, condição metabólica e também os objetivos do paciente. Para alguns, a medicação será suficiente. Para outros, a cirurgia será a melhor opção. E para muitos pacientes, vamos precisar combinar diferentes estratégias. Hoje, o mais importante é entender que não existe uma única solução para todos os pacientes. O tratamento precisa ser personalizado e acompanhado ao longo do tempo.
CVB – Qual é o principal erro que você vê pacientes cometendo ao usar as canetas por conta própria?
RR – O principal erro é acreditar que a caneta, sozinha, resolve a obesidade. Não é a caneta que emagrece somente. São vários fatores. Os análogos GLP1 são um remédio para obesidade dentro de um contexto multifatorial de tratamento. Vejo pacientes usando medicamentos sem acompanhamento, escolhendo doses por conta própria, aumentando a dose rapidamente ou seguindo orientação de pessoas que não conhecem seu histórico clínico. Outro erro é acreditar que, porque está usando a caneta, não precisa mais de acompanhamento médico, nutricional, atividade física ou mudança de comportamento. A caneta é uma ferramenta extremamente importante, mas precisa estar inserida dentro de um tratamento completo. E para quem já fez bariátrica, eu reforço: se houve reganho de peso, antes de simplesmente prescrever ou aumentar uma caneta, precisamos descobrir por que o peso voltou. Minha mensagem principal é: não existe tratamento eficaz da obesidade baseado apenas em uma medicação. Existe um paciente, existe uma doença e existe uma estratégia terapêutica individualizada.


