Saúde mental não cabe em setembro: Do discurso do cuidado à responsabilidade coletiva – parte I

*Por Chenya Coutinho
Foto: Juliana Santin

Setembro chega e, quase como parte do calendário institucional, a saúde mental passa a ocupar com mais intensidade as redes sociais, os serviços públicos, as empresas e os espaços de formação. Multiplicam-se campanhas, rodas de conversa, palestras, mensagens sobre acolhimento, escuta e valorização da vida, ao mesmo tempo em que se reforçam orientações para reconhecer sinais de sofrimento e buscar ajuda. Esse movimento tem importância, sobretudo em uma sociedade na qual tantas pessoas ainda encontram dificuldades para nomear aquilo que sentem, acessar cuidados ou falar sobre sofrimento sem medo de julgamento; ainda assim, exatamente porque setembro concentra tantos discursos sobre saúde mental, ele também pode nos provocar a formular uma pergunta menos confortável: o que fazemos com a saúde mental quando setembro termina?

Essa pergunta tem me acompanhado ao longo da minha trajetória como enfermeira, educadora e trabalhadora do Sistema Único de Saúde, especialmente porque, nos serviços, nas equipes e nos territórios, o sofrimento raramente se apresenta como uma experiência simples, isolada ou explicável por uma única causa. O que encontramos, na vida concreta, são histórias nas quais trabalho, renda, relações familiares, gênero, raça, violências, responsabilidades de cuidado, adoecimento, território, precariedade, vínculos, solidão, pertencimento e acesso às políticas públicas vão se entrelaçando e produzindo diferentes formas de viver, adoecer, resistir e buscar ajuda. Por isso, pensar saúde mental exige mais do que reconhecer sintomas ou discutir diagnósticos; exige compreender as condições nas quais as pessoas existem e as relações sociais que atravessam suas possibilidades de cuidado, proteção e sofrimento.

Talvez seja justamente por isso que me cause incômodo quando debates complexos sobre saúde mental terminam reduzidos a orientações sobre aquilo que cada pessoa deveria fazer individualmente para permanecer saudável: dormir melhor, praticar atividade física, organizar a rotina, meditar, estabelecer limites, procurar terapia, desenvolver inteligência emocional ou fortalecer a resiliência. Muitas dessas estratégias podem ser importantes e produzir cuidado, mas tornam-se insuficientes quando passam a ocupar o lugar das transformações necessárias nos contextos que produzem ou agravam o sofrimento. O problema não está no autocuidado em si, mas no deslocamento de responsabilidades coletivas e institucionais para o indivíduo, como se coubesse a cada pessoa tornar-se progressivamente mais adaptável a situações que, muitas vezes, precisariam ser modificadas.

Há uma diferença importante entre apoiar alguém para lidar com uma situação difícil e ensinar essa pessoa a suportar indefinidamente uma condição adoecedora. Da mesma forma, existe uma diferença entre fortalecer recursos individuais e responsabilizar o indivíduo por sobreviver a contextos nos quais persistem sobrecarga, violência, discriminação, precarização ou ausência de participação. Quando essa distinção desaparece, corremos o risco de transformar a própria linguagem do cuidado em instrumento de adaptação ao sofrimento.

 

*Enfermeira sanitarista, mestre em Psicologia e doutoranda em Educação, pesquisadora e gestora pública no fortalecimento da Atenção Primária e da Saúde Mental .